Cidades preparadas para um clima em transformação: aprendizados de uma missão técnica em Portugal

Portugal e Brasil vêm convivendo de forma cada vez mais presente com uma questão central da adaptação às mudanças climáticas: a necessidade de preparar o território tanto para o excesso quanto para a escassez de Água. Essa alternância entre condições distintas ajuda a tornar concreta uma discussão urgente: como planejar hoje para condições climáticas cada vez mais variáveis? Esse contexto reforça a necessidade de olhar de forma integrada para planejamento territorial, mobilidade, segurança hídrica, infraestrutura e sistemas naturais.

Foi nesse cenário que Guilherme Castagna, sócio-diretor da Fluxus Design Ecológico, participou, entre 20 e 22 de outubro de 2026, de uma missão técnica em Portugal dedicada à troca de experiências sobre o futuro das cidades. A delegação era formada majoritariamente por representantes da Prefeitura de São José dos Campos (SP), e Guilherme Castagna participou como convidado da equipe.

Embora a neutralidade de carbono estivesse entre os motes da missão, o interesse da Fluxus esteve especialmente nas iniciativas relacionadas a uma questão mais ampla: como planejar cidades mais resilientes e capazes de se adaptar a um clima em transformação?

A experiência trouxe três reflexões particularmente relevantes.

1. Sistemas urbanos integrados: Água, infraestrutura e informação

Um dos aspectos mais relevantes das experiências apresentadas foi a busca por superar uma visão fragmentada da cidade. Água, mobilidade, energia, resíduos, edificações e ocupação do território fazem parte de sistemas interdependentes e precisam ser considerados conjuntamente no planejamento.

Para a Fluxus, essa integração passa por compreender a Água em todo o seu ciclo urbano. Isso significa ir além do manejo das águas pluviais, cuja integração ao planejamento urbano, por meio da infraestrutura verde e de Soluções Baseadas na Natureza, é fundamental para a adaptação climática. Significa também olhar de forma articulada para o abastecimento, o tratamento das águas residuárias, o reúso e as relações desses sistemas com o território.

Outro aspecto especialmente interessante apresentado no Porto esteve relacionado à integração da informação. Dados sobre consumo de água e eletricidade, produção de resíduos e mobilidade foram aproximados da experiência de cidadãos e instituições participantes.

O valor desse cruzamento vai além do monitoramento: a informação pode contribuir para educação, envolvimento e mobilização cidadã e, ao mesmo tempo, transformar dados dispersos em conhecimento capaz de orientar decisões, apoiar processos de governança e qualificar o planejamento urbano.

Se os sistemas da cidade se relacionam no território, as informações sobre esses sistemas também precisam conversar entre si.

2. Mobilidade e requalificação urbana como oportunidades de adaptação

Planejar como as pessoas se deslocam é também planejar o território.

A organização da mobilidade influencia a ocupação urbana, a distribuição das atividades, a configuração das ruas e a qualidade dos espaços públicos. Por isso, intervenções voltadas à mobilidade também podem representar oportunidades para transformar outros sistemas da cidade.

A requalificação de uma via ou de um corredor urbano, por exemplo, pode ser pensada simultaneamente como intervenção de mobilidade, paisagem, arborização e manejo das águas pluviais.

Essa abordagem muda a própria maneira de enxergar uma rua. Ela deixa de ser somente uma infraestrutura para circulação e pode passar a desempenhar diferentes funções urbanas e ambientais: conectar pessoas, receber vegetação, manejar a Água, qualificar o espaço público e contribuir para o conforto e a resiliência urbana.

Assim, a escolha entre soluções centralizadas, descentralizadas ou combinadas não deveria partir de uma preferência por determinada tecnologia ou tipologia. Deve surgir da leitura do território, de seus sistemas existentes, das oportunidades abertas pela requalificação urbana e dos desafios que precisam ser enfrentados em cada situação.

3. Resiliência: da estratégia para o território

Planos climáticos, metas ambientais e estratégias de longo prazo são importantes, mas seu valor está na capacidade de produzir mudanças concretas nas cidades.

Construir resiliência significa aprender a responder a condições diferentes, inclusive a extremos opostos. Não basta preparar a cidade apenas para a chuva intensa, para a seca ou para uma determinada projeção climática. É preciso ampliar sua capacidade de adaptação.

Isso exige reconhecer que os problemas urbanos raramente correspondem às fronteiras tradicionais entre disciplinas. Água, saneamento, mobilidade, uso do solo, vegetação, energia e espaço público se encontram no mesmo território e interferem uns nos outros.

Aprender sem simplesmente copiar

As experiências conhecidas em Portugal não representam modelos a serem simplesmente transferidos para as cidades brasileiras. As condições ambientais, territoriais, sociais e institucionais são distintas.

O valor desse intercâmbio está em ampliar nossas referências e, principalmente, melhorar as perguntas que fazemos sobre o território.

  • Como planejar conjuntamente Água, infraestrutura, sistemas naturais e informação para construir segurança hídrica e ampliar a capacidade de adaptação?
  • Como aproveitar intervenções de mobilidade e requalificação urbana para transformar também a relação entre Água, vegetação, espaço público e ocupação do território?
  • Como combinar infraestruturas, tecnologias e processos naturais em diferentes escalas, de acordo com as condições de cada lugar?

Essas perguntas apontam para uma mesma direção: resiliência não é uma solução específica, mas uma capacidade que precisa ser construída no território.

Foto: Porto Ambiente

É nesse encontro entre engenharia, ecologia, informação, mobilidade e planejamento urbano que enxergamos algumas das oportunidades mais promissoras para construir cidades mais adaptáveis e resilientes.

Compartilhe:

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta